Era o primeiro dia do ano de 2025 quando nove pessoas foram hospitalizadas após consumirem um prato típico nordestino: o baião de dois, que leva arroz, feijão e alguns temperos. Não demorou muito para que o caso se tornasse um dos mais comentados do Piauí e ganhasse projeção nacional. Afinal, como — e por que? — uma tragédia dessa proporção afetou tantas pessoas, sendo oito da mesma família, em Parnaíba, no litoral do Piauí?
Entre tantas reviravoltas, essa matéria busca responder às várias interrogações e desencontro de informações que marcaram esse caso.
Como tudo começou
Na noite de Ano Novo, o baião de dois havia feito parte do cardápio da ceia da família de Francisca da Silva, 32 anos. Fora de qualquer suspeita na madrugada do dia anterior, o arroz foi utilizado para o almoço que serviria os filhos de Francisca -- Igno Davi da Silva, de 1 ano e 8 meses, Maria Lauane da Silva, de 3 anos, e Maria Gabriela da Silva, de 8 anos. O irmão da mulher, Manoel Leandro, de 18 anos, a vizinha Jocilene da Silva e seu filho de 11 anos, também os acompanhariam na refeição. Na casa também estavam Francisco de Assis, 56 anos, e Maria dos Aflitos, padrasto e mãe de Francisca.
Poucos minutos depois de todos se servirem, os presentes começaram a se sentir mal e precisaram chamar uma ambulância e serem hospitalizados. Estavam mãe, filhos, irmão e vizinhos indo para o hospital com sintomas de intoxicação alimentar -- fortes cólicas, dores no estômago, tremores, falta de ar e até convulsões --, mas aquilo, era só o início de uma tragédia.
Manoel Leandro, o irmão, não resistiu aos sintomas e morreu a caminho do hospital, ainda na ambulância. A vizinha Jocilene e seu filho conseguiram se recuperar e tiveram alta, mas Francisca e seus filhos morreram devido a complicação de seus quadros clínicos ao longo dos dias. O padrasto, Francisco, chegou a passar mal horas depois da refeição, mas foi liberado. A única que não precisou ser internada e não sentiu nenhum sintoma foi a avó, Maria dos Aflitos, que alegou não ter comido naquele dia.
A descoberta do veneno
Com as mortes tão rápidas e repentinas, a Polícia Civil precisou investigar o caso. Na casa onde a família havia se reunido, peixes que haviam sido entregues por doação na região passaram a se tornar o principal foco de suspeitas. O casal responsável pelas doações chegou a ser ouvido, mas a suspeita foi descartada pois os peixes estavam em boas condições e outras famílias beneficiadas não haviam sido afetadas por nenhum dos sintomas.
A investigação já estava em andamento quando a polícia decidiu ir à casa onde tudo aconteceu. Ao abrir a panela de arroz, foi possível identificar pedaços de grãos misturados ao alimento. Segundo a polícia, era possível identificar a olho nu, mas mesmo assim, todo o conteúdo foi encaminhado para exames toxicológicos, que confirmaram que o alimento envenenado era o baião de dois, preparado originalmente no dia 31 de dezembro de 2024.
O VENENO
Na comida, havia resíduos de uma substância chamada "terbufós", conhecida como chumbinho, usada para matar ratos. Uma alta concentração desse tipo de veneno, se consumida por humanos, é capaz de levar à morte. No Brasil, essa substância tem sua produção e comercialização proibida devido ao risco extremo que ela representa em ambientes domésticos. Com a substância encontrada, restava outra pergunta: quem envenenaria aquela família e porque?
A história fica mais complexa
Após a manhã do dia 1°, o dia em que o veneno foi colocado no arroz, morreram cinco pessoas. Mas, caros leitores, a história fica mais complexa agora. Isso porque, quatro meses antes, no dia 22 de agosto de 2024, outros dois filhos de Francisca — João Miguel da Silva, de 7 anos, e Ulisses Gabriel da Silva, de 8 anos — foram internados com suspeita de intoxicação alimentar.
Lembra que no começo eu falei que sete pessoas da mesma família foram envenenadas? Então, os filhos de Francisca que antes tinham sido dados como mortos por intoxicação, na verdade, também foram mortos por envenenamento pela mesma substância encontrada no baião de dois.
Uma culpada?
Ulisses e João Miguel não resistiram e morreram semanas depois de serem hospitalizadas: Esse caso havia sido encerrado na época. Segundo as primeiras investigações, o envenenamento teria sido causado por cajus oferecidos por uma vizinha, Lucélia Maria da Conceição Silva, de 52 anos.
À época, a situação revoltou a comunidade. Lucélia chegou a ser presa e teve sua casa incendiada por moradores revoltados com a situação. A mãe das crianças, Francisca, chegou a declarar que a vizinha “tacava pedras nas crianças”, o que aumentou ainda mais a desconfiança sobre ela.
Ela costuma envenenar os gatos, cachorros. Todo mundo fala. Antigamente, quando o muro era de cerca, ela costumava tacar pedra nas crianças, jogava água quente.
Primeira Reviravolta
Se a vizinha estava presa, quem teria usado o mesmo veneno para matar outras pessoas da mesma família quatro meses depois? A história muda aqui. Lucélia, que sempre negou qualquer envolvimento, foi solta e declarada inocente. Na verdade, mesmo presa, não havia ficado claro como as duas crianças foram envenenadas em agosto, já que a história do caju foi contada por Francisco, Maria dos Aflitos e Francisca, mãe dos meninos.
Francisco chegou a entregar à polícia uma sacola de cajus supostamente doados por Lucélia e envenenados. Maria dos Aflitos até registrou um boletim de ocorrência contra a vizinha, reforçando a acusação. Durante a investigação, a polícia encontrou terbufós na casa de Lucélia e um gato morto na frente da residência, também envenenado com a substância. Lucélia alegou que usava o pesticida para matar morcegos, mas diante das evidências, foi presa preventivamente
Lucélia ainda aguardava o julgamento, mas as provas concretas que a ligassem ao envenenamento nunca apareceram. Sem nada que sustentasse as acusações, ela foi solta. Hoje, Lucélia clama por justiça e pela sua vida de volta. Ela entrou com um pedido de indenização de R$ 300 mil por danos morais e materiais.
Ela saiu do jogo
Se Lucélia não era mais a suspeita, quem seria? Saímos de 2024 e voltamos para o fatídico dia 1º de janeiro de 2025. Francisco de Assis prestou depoimento à polícia e, a partir daí, se tornou o principal suspeito. Seu comportamento chamou atenção: suas falas eram confusas e suas atitudes, incoerentes para alguém em meio a uma tragédia familiar. Francisco afirmou que ninguém havia entrado na casa na manhã do dia 1º.
Se a comida não tivesse sido envenenada no dia 31, alguém teria colocado o veneno no arroz no dia 1º. Mas quem? Segundo Francisco, ele mesmo fechou as portas da casa durante a madrugada e, ao acordar, garantiu que ninguém havia passado por lá.
Novos suspeitos
Diante desse depoimento, a polícia começou a considerar que o responsável poderia ser alguém de dentro da própria casa. Se cinco pessoas estavam mortas, as únicas opções eram Francisco, Maria dos Aflitos — que não comeu a comida — ou, ainda, a vizinha, Maria Jocilene.
Uma série de achados controversos marcam a história. Em uma operação de busca e apreensão na casa da família, a polícia encontrou materiais relacionados ao nazismo. Entre os itens encontrados estavam DVDs que abordavam práticas e ideologias nazistas. Além disso, foi encontrado um livro chamado “Médicos Malditos”, de Christian Bernadac, que, em uma parte, tinha um grifo destacando métodos de uso de veneno que dificultam a detecção da intoxicação das vítimas.
“Ela dizia que, para despistar as vítimas, o veneno deveria ser sem gosto e cheiro”, afirmou o delegado do caso, Abimael Silva.
Tudo isso tornava Francisco um potencial suspeito, fazendo com que ele fosse preso preventivamente, mas a vizinha também estava na mira. Estava, até fatalmente, sofrer uma segunda tentativa de envenenamento.
Morte inesperada
No dia 22 de janeiro, Jocilene voltou a ser internada com intoxicação alimentar. Naquela manhã, ela havia tomado café na na casa de Maria dos Aflitos. Os fatos, mais uma vez, colocaram o casal Francisco e Maria dos Aflitos como suspeitos.
Com a chegada da perícia, foi encontrado o veneno na taça de vidro que ela usou para tomar café e água. Maria dos Aflitos chegou a alegar que a mulher havia sofrido um infarto, a alegação foi refutada, resultando em sua prisão no dia 31 de janeiro.
A confissão
Já presa, Maria dos Aflitos confessou o assassinato de Jocilene, alegando que esperava libertar Francisco de Assis, assim como aconteceu com Lucélia, colocando a culpa em outra pessoa.
“O que houve é que eu tava cega de amor pelo Assis, e pra ter ele de volta, poderia acontecer o mesmo caso”, disse em depoimento.
Ela afirmou que Francisco de Assis premeditou os primeiros envenenamentos, desprezava seus filhos e netos e utilizou o caso dos cajus como álibi. Segundo Maria, o veneno foi adicionado ao suco das crianças e ao arroz na madrugada de Ano Novo. Sobre a morte de Jocilene, ela disse que encontrou o pesticida atrás do fogão e despejou o conteúdo no café.
Triângulo amoroso
O enredo de filme de terror acabou revelando um história marcada por um triângulo amoroso. Maria dos Aflitos e Jocilene se relacionavam com a ciência (e participação) de Francisco. A mulher se declarou culpada, mas esta colunista ainda explica mais sobre a investigação envolvendo o nome de Francisco de Assis e os motivos, de acordo com a polícia, que o levam a ser o principal suspeito.
Francisco de Assis e o crime
Francisco apresentou várias versões contraditórias no início do caso sobre os acontecimentos.
“Ele primeiro disse que não tinha chegado perto da panela, depois disse que tinha chegado, depois disse que não tinha orientado ninguém a usar o arroz”, afirmou o delegado Abimael Silva.
Deu a ordem
Além disso, Francisco foi o responsável por dar a ordem de requentar o arroz, que foi o alimento em que o veneno foi encontrado. Esse ato levantou ainda mais suspeitas, pois, segundo a polícia:
Depois desse almoço, as vítimas começaram a sentir os efeitos do veneno terbufós, conforme apontado por laudo do Instituto de Medicina Legal (IML).
Último a dormir
Outro fator crucial foi o comportamento de Francisco na madrugada do crime. Ele foi o último a dormir e foi encarregado de fechar a casa por volta das 4h da manhã. A polícia acredita que esse tenha sido o momento em que ele pode ter colocado o veneno no arroz, já que a entrada de alguma pessoa de fora na residência, que poderia ter cometido o crime, foi descartada pela polícia, pois, segundo os depoimentos de membros da família, nada foi percebido.
Não comeu o almoço
Além disso, a polícia desconfia que Francisco tenha simulado a ingestão do veneno. “Ele relatou ter sentido os sintomas mais de três horas depois”, mas a investigação sugere que ele pode ter “simulado que iria comê-lo, colocando-o no prato, ou que ele ingeriu em pequena quantidade”.
Para comprovar a teoria, a polícia ainda aguarda os resultados dos exames de sangue e urina do suspeito.
Desprezo pelas vítimas
Por fim, a investigação revelou um forte sentimento de desprezo de Francisco para com a filha de sua esposa, Francisca Maria, mãe das vítimas.
“Ele revelou, bem como as enteadas, que o relacionamento entre eles era conturbado, para dizer o mínimo. Ele não falava com nenhum dos filhos da esposa e tinha um sentimento de ódio específico em relação à Francisca Maria”, relatou o delegado.
“Esse sentimento de ódio era tão grande que, mesmo com ela no leito da morte, ele não conseguia esconder isso no depoimento dele. Ele disse que quando olhava para ela, sentia nojo e raiva”.
Ele os chamava de ‘primatas’, afirmava que Francisca era ‘preguiçosa, matuta, boba e burra’. O caso ainda não foi fechado e segue sob investigação muitas reviravoltas podem — e esta colunista não duvida que vão — acontecer.
Esse caso se assemelha a outros dois bem conhecidos:
- O bolo envenenado no Rio Grande do Sul, que também matou pessoas da mesma família durante o Natal.
- O curry com cianeto na Índia, onde uma jovem envenenou familiares por quase uma década. Esse caso, inclusive, virou documentário na Netflix, caso você queira assistir. (Em breve, prometo trazer essa história para a coluna)
Muitas perguntas ainda pairam sobre o caso de Parnaíba. O culpado seria um serial killer?
Bom, ele chegaria bem perto. Para ter certeza, é preciso investigar o passado do assassino. Será que ele já teria matado outras pessoas antes usando o mesmo modus operandi? Após a morte de quase toda a família, a polícia começou a investigar outras mortes suspeitas, inclusive uma em 2021: o marido de Francisca, uma das vítimas, que teria morrido com os mesmos sintomas de “intoxicação alimentar”. A polícia estuda a possibilidade de exumar o corpo para verificar se há vestígios de alguma substância tóxica.
Poderiam matar novamente?
Com base em tudo o que aconteceu até agora, sim. Criminosos desse perfil, quando se veem ameaçados, tendem a reagir. O que ficou faltando são outras coisas que nós, amantes de true crime, gostamos de entender: o perfil psicológico dos suspeitos.
Como seria a dinâmica familiar naquela casa? Em que momento Francisco de Assis entrou nessa família? O que realmente o levou a cometer esses crimes? Onde eles conseguiram o veneno? Era algo de uso cotidiano ou já o mantinham ali com um plano maior em mente? De alguma forma eles achavam que poderiam sair impunes? As mortes das crianças em agosto de 2024 teriam sido um teste para o que iria acontecer em janeiro de 2025?
Bom, o caso segue em investigação. Espero que, em breve, tenhamos todas essas respostas — e que a justiça seja feita.