No ano em que o Brasil realizará a COP30, o mais importante evento sobre as mudanças climáticas desde a Cúpula de Paris, que resultou num histórico acordo até hoje distante de ser plenamente concretizado, o ambientalista Carlos Nobre - um dos mais respeitados estudiosos brasileiros de clima e mudanças climáticas globais-, faz um alerta importante, sobre os riscos de que a Amazônia está próxima do ponto de não retorno.
Isso significa que esse relevante bioma ingressou numa situação em que pode não conseguir mais se regenerar, o que se agravaria de forma irremediável, podendo levar 70% da floresta a se degradar irreversivelmente nas próximas décadas.
Creditando os danos à natureza aos fortes e contínuos desmatamentos na floresta amazônica e outros ambientes, à exploração irresponsável, e até criminosa, de minérios, a um processo de agropecuária inadequado e às explorações desordenadas de combustíveis fósseis, Carlos Nobre vê com entusiasmo a realização no Brasil, em novembro deste ano, da Cúpula do Clima, a COP30, em Belém do Pará.
Apesar de o atual governo brasieiro vir fazendo grande esforço para impedir as agressões à floresta amazônica, como mostra a redução dos desmatamentos em 2024, com uma queda de 45,7%, a maior desde 2016, quando se iniciou a série histórica, os riscos permanecem, em razão do descontrole total no passado, sobretudo no governo anterior.
Para ele, é muito importante essa opção pela COP, e aponta que o Brasil deve ocupar uma liderança expressiva nesse terreno. Ele considera que foi inspirador ver o Presidente Lula, ainda presidente eleito, mas não empossado, anunciar na COP27, no Egito, a proposta de levar a COP30 para Belém, recebendo aprovação das Nações Unidas a essa candidatura, o que viria em seguida a se consolidar.
Para reforçar o significado desse entendimento, ele lembra a importância enorme que a Rio 92 trouxe ao colocar o Brasil no ambiente ecológico mundial, um evento realizado pelas Nações Unidas que trouxe à tona os riscos ambientais que o mundo já estava atravessando, iniciando-se aí um planejamento das governanças mais diversisficadas para o enfrentamento de um problema que só se agravaria com o tempo.
Ele lembra que foi exatamente com a Rio 92 que surgiram as Conferências Globais sobre o Clima, passando-se daí a se dedicar atenção às mudanças climáticas, biodiversidade, desertificação, catástrofes naturais, e proteção a rios e oceanos, até então temas bastante negligenciados e de pouco debate.
Na sua opinião, a escolha, agora, de Belém, também foi acertada porque representa a interseção entre a crise climática e a preservação da biodiversidade. Ele entende que o Brasil está adotando, em quase todos os setores, posições, políticas e implementações muito positivas para liderar essas negociações. E diz que se olharmos as 29 COPs realizadas até hoje, as mais significativas foram a 21, em 2015, em Paris, onde foi assinado o Acordo de Paris, e a 26, em 2021, em Glasgow (Escócia), que reforçou o compromisso global de limitar o aquecimento a 1,5°C. O Brasil está tomando medidas importantes, como acelerar a redução do desmatamento, que é responsável por 70% a 80% das emissões brasileiras.
Carlos Nobre considera que presidente Lula tem buscado uma política consistente para reduzir emissões e se adaptar às mudanças climáticas, equilibrando compromissos ambientais, e afirma que é possível conciliar plenamente desenvolvimento com programas de atenção ao meio-ambiente. Portanto, sim, é possível crescer economicamente e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto ambiental.
O professor Carlos Nobre é uma referência mundial sobre mudanças climáticas, cientista respeitado, integrante do grupo Planetary Guardians, com uma robusta carreira no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -INPI e professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Unoversidade de São Paulo. Ele faz parte da equipe internacional de cientistas que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.