José Osmando

Coluna do jornalista José Osmando - Brasil em Pauta

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Calor extremo e falta de climatização estão sacrificando o ensino

Esse fenômeno de aumento das temperaturas- que só agora estão se elevando em 5ºC, vem acontecendo no mundo inteiro

Embora existam governantes de Estados e Municípios, espalhados por esse Brasil afora, que insistam em negligenciar as mudanças climáticas, em relevar o aumento exacerbado do calor e os males que isso pode trazer à saúde humana, o fato concreto é que até mesmo em São Paulo - o maior e mais rico Estado do país-, escolas estão sendo levadas a suspender suas atividades, encerrando suas aulas, por conta da maior elevação de temperaturas da história, agravada pelo fato de que muitas unidades de ensino não têm como enfrentar essa situação, por não serem climatizadas, desprovidas de ar-condicionado.

Esse fenômeno de aumento das temperaturas- que só agora estão se elevando em 5ºC, vem acontecendo no mundo inteiro, mas está chegando para valer no Brasil, um país tropical, com incidência muito forte do sol, e está levando a uma realidade assustadora, que consiste no aumento das desigualdades sociais, ao atingir sobretudo crianças e adolescentes em escolas localizadas nas regiões mais pobres.

Os cientistas dedicados a estudos sobre elevação do clima, dizem que desde 2023 o Brasil vem contabilizando essas elevações desagradáveis, com uma elevação média de 5ºC. Em 2024, constataram que até setembro o Brasil havia suportado uma onda dessas por mês. E agora, em 2025, em apenas dois meses (incompletos) já se registraram quatro episódios, numa média de 2 a  cada 30 dias, com temperaturas superiores a 35º à sombra, mas com sensação térmica que chega aos 50º.

Embora o aumento do calor não respeite territórios e faça todas as regiões nivelar-se nas mesmas condições adversas, são as escolas situadas em cidades mais pobres, em municípios mais financeiramente enfraquecidos, que mais sofrem. Isso porque o aumento de temperaturas ganha um aliado perverso, que é exatamente a falta de condições para combatê-lo. 

Os dados estatísticos que a mídia começam a revelar são preocupantes. Em quase todos os Estados brasileiros essa onda muito elevada de calor tem afetado escolas em vários sentidos. Até mesmo nos Estados do Sul e Sudeste, onde as temperaturas são historicamente mais amenas, o problema passa a existir com preocupação muito grande, pois uma elevação repentina de 4 a 5 graus para quem não tem convivência com o calor, causa tanto contratempo quanto os que ocorrem em lugares com temperaturas sempre mais altas.

Desse modo, em todos os Estados do Sul e sudeste têm ocorrido atraso no início das aulas, e aqueles em que as atividades já haviam sido iniciadas houve interrupção, pois os alunos não suportam o calor, um fator que se agiganta nas escolas que não dispõem de ar-condicionado. Outra constatação preocupante é quanto ao desempenho dos alunos no aprendizado. 

Um estudo que acaba de ser realizado e divulgado pelo Harvard, revelado pelo professor  Jisung Park, mostra que fazer uma prova em um dia com cerca de 32ºC resulta em uma redução de 14% no desempenho do aluno. Outra revelação é a de que estudantes no Brasil aprendem 6% do que seus colegas sul-coreanos em situações comparadas de calor, tendo por referência os resultados do Pisa.

Os levantamentos indicam que sete em cada dez salas de aula brasileiras não dispõem de climatização, levando estudantes e professores a conviverem com essa situação incômoda e prejudicial, afetando diretamente, de maneira dura, a qualidade do ensino e o bem-estar de todos. Além dos reflexos negativos no aprendizado, professores de Harvard identificaram em estudo que dias de calor extremo foram associados a elevadas taxas de idas de alunos e professores ao pronto-socorro por problemas de saúde mental, como ansiedade, automutilação e transtornos comportamentais, principalmente em crianças.

Os cientistas atribuem as altas temperaturas a mudanças nos hormônios do estresse e a distúrbios do sono.

Apesar dos esforços de alguns governantes para climatizar salas de aula, a proporção de ambientes desprovidos de ar-condicionado ainda é alarmante.  Há Estados considerados ricos, como Santa Catarina, em que  65% das salas de aula não são climatizadas. No Rio de Janeiro, que é um Estado com temperaturas sempre mais elevadas, 54% dos seus ambientes de ensino também não contam com climatização. Em condições bem melhores encontram-se quase todos os Estados do Nordeste, como a Bahia, por exemplo, onde apenas 21% das salas não são climatizadas. Ceará tem 72% de suas salas climatizadas, Pernambuco tem 65, o Maranhão 64% e Piauí e Alagoas igualmente, já conseguiram climatizar 58% de suas salas. Mato Grosso, só com 18% de salas com ar-condicionado, e Rondônia, com somente 11º, estão na rabeira nesse esforço de combate ao calor.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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